Crônicas & Poesias

FN Café NEWS - quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A poesia de Drummond

Hino nacional  -  Carlos Drummond de Andrade
Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonnettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas.
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões…
os Amazonas inenarráveis… os incríveis João-Pessoas…
Precisamos adorar o Brasil.
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos…
se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

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Monólogo das Grandezas do Brasil
Belchior

 Todo mundo sabe/todo mundo vê
Que tenho sido amigo da ralé da minha rua
Que bebe pra esquecer que a gente
É fraca
É pobre
É víl

Que dorme sob as luzes da avenida
É humilhada e ofendida pelas grandezas do brasil
Que joga uma miséria na esportiva
Só pensando em voltar viva
Pro sertão de onde saiu

Todo mundo sabe
(principalmente o bom deus, que tudo vê)
Que os homens vão dizer que a vida é dura e incompleta
Pra quem não fez a guerra e não quer vestibular
Pra quem tem a carteira de terceira
Pra quem não fez o serviço militar
Pra quem amassa o pão da poesia
Na limpeza e na alegria
Contra o lixo nuclear.

Como uma metrópole,
O meu coração não pode parar
Mas também não pode sangra eternamente

Ta faltando emprego
Neste meu lugar
Eu não tenho sossego
Eu quero trabalhar
Já pensei até em passar a fronteira.
- eu vou pra são paulo e rio
(eldorados da além - mar)
A estrada é uma estrela pra quem vai andar.
Oh! não! oh! não!
Ai! ai! que bom que é
A lua branca, um cristão andando a pé!
Ai! ai! que bom, que bom se eu for
Pés no riacho, água fresca, nosso senhor!

Vou voltar pro norte/ semana que vem
Deus já me deu sorte/ mas tem um porem
Não me deu a grana/ pra eu pagar o trem. Todo mundo sabe/todo mundo vê
Que tenho sido amigo da ralé da minha rua
Que bebe pra esquecer que a gente
É fraca
É pobre
É víl
Que dorme sob as luzes da avenida
É humilhada e ofendida pelas grandezas do brasil
Que joga uma miséria na esportiva
Só pensando em voltar viva
Pro sertão de onde saiu

Todo mundo sabe
(principalmente o bom deus, que tudo vê)
Que os homens vão dizer que a vida é dura e incompleta
Pra quem não fez a guerra e não quer vestibular
Pra quem tem a carteira de terceira
Pra quem não fez o serviço militar
Pra quem amassa o pão da poesia
Na limpeza e na alegria
Contra o lixo nuclear.

Como uma metrópole,
O meu coração não pode parar
Mas também não pode sangra eternamente

Ta faltando emprego
Neste meu lugar
Eu não tenho sossego
Eu quero trabalhar
Já pensei até em passar a fronteira.
- eu vou pra são paulo e rio
(eldorados da além - mar)
A estrada é uma estrela pra quem vai andar.
Oh! não! oh! não!
Ai! ai! que bom que é
A lua branca, um cristão andando a pé!
Ai! ai! que bom, que bom se eu for
Pés no riacho, água fresca, nosso senhor!

Vou voltar pro norte/ semana que vem
Deus já me deu sorte/ mas tem um porem
Não me deu a grana/ pra eu pagar o trem.
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POEMA

O poema de hoje é esta manhã
que se estende para o mundo, infectada de coisas
lembradas e esquecidas.
Esta manhã que se perde na poeira oblíqua
do tempo onde os homens depositam
os seus sonhos improváveis e tristes.
Manhã onde a vida é diluída na paisagem
do pensamento.

Assim, só nos resta acolher a verdade
dos campos e nos abandonarmos
nesta hora diminuta.
Só nos resta avistar no longínquo das nuvens
os habitantes da fuga
e os pássaros sem religião.


                            Wagner Rocha

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Se houver uma Camisa Preta e Branca...
Roberto Drummond
Bandeira do Clube Atlético Mineiro (CAM): o Galo forte, carijó das Minas Gerais
Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento. Ah, o que é ser atleticano? É uma doença? Doidivana paixão? Uma religião pagã? Bênção dos céus? É a sorte grande? O primeiro e único mandamento do atleticano é ser fiel e amar o Galo sobre todas as coisas. Daí, que a bandeira atleticana cheira a tudo neste mundo.

Cheira ao suor da mulher amada.
Cheira a lágrimas.
Cheira a grito de gol
Cheira a dor.
Cheira a festa e a alegria.
Cheira até mesmo perfume francês.
Só não cheira a naftalina, pois nunca conhece o fundo do baú, trêmula ao vento.

A gente muda de tudo na vida. Muda de cidade. Muda de roupa. Muda de partido político. Muda de religião. Muda de costumes. Até de amor a gente muda. A gente só não muda de time, quando ele é uma tatuagem com a iniciais C.A.M., gravada no coração. É um amor cego e têm a cegueira da paixão.

Já vi o atleticano agir diante do clube amado com o desespero e a fúria dos apaixonados. Já vi atleticano rasgar a carteira de sócio do clube e jurar: Nunca mais torço pelo Galo. Já vi atleticano falar assim, mas, logo em seguida, eu o vi catar os pedaços da carteira rasgada e colar, como os amantes fazer com o retrato da amada.

Que mistério tem o Atlético que, às vezes, parece que ele é gente? Que a gente associa às pessoas da família (pai, mãe, irmão, tio, prima)? Que a gente o confunde com a alegria que vem da mulher amada?
Que mistério tem o Atlético que a gente confunde com uma religião?
Que a gente sente vontade de rezar "Ave Atlético, cheio de graça?"
Que a gente o invoca como só invoca um santo de fé? Que mistério tem o Atlético que, à simples presença de sua camisa branca e preta, um milagre se opera?Que tudo se transfigura num mar branco e preto?

Ser atleticano é um querer bem. É uma ideologia. Não me perguntem se eu sou de esquerda ou de direita. Acima de tudo, sou atleticano e, nesse amor, pertenço ao maior partido político que existe:

O Partido do Clube Atlético Mineiro, o PCAM, onde cabem homens, mulheres, jovens, crianças. Diante do Atlético todos são iguais: o bancário pode tanto quanto o banqueiro, o operário vale tanto quanto o industrial. Toda manhã, quando acordo, eu rezo: Obrigado, Senhor, por me ter dado a sorte de torcer pelo Atlético.

Roberto Drummond
Em 1975, Roberto Drummond foi considerado o escritor revelação da temporada, com a publicação do romance "A Morte de D. J. em Paris", recebendo o Prêmio Jabuti.
Numa primeira fase de sua carreira, participou da chamada literatura pop, caracterizada pela ausência de cerimônias e pela proximidade com o cotidiano.
 Drummond escreveu "O Dia em que Ernest Hemingway Morreu Crucificado" (romance, 1978), "Sangue de Coca-Cola" (romance, 1980) e "Quando Fui Morto em Cuba (contos, 1982).
Com "Hitler Manda Lembranças" (romance, 1984) e "Ontem à Noite Era Sexta-feira" (romance, 1988) iniciou uma nova fase em sua produção literatura, com enredos mais complexos.
 Em 1991, lançou seu maior sucesso, o romance "Hilda Furacão", que foi adaptado para a televisão por Glória Perez, numa minissérie. Pare ele, o fato de o livro ter se tornado sua obra-prima resultou numa espécie de prisão. "Sou um eterno refém de 'Hilda Furacão'", dizia o escritor.

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Forever Young

Bob Dylan


Original/Inglês

Tradução/Português

May God bless and keep you always,
May your wishes all come true,
May you always do for others
And let others do for you.
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young.

May you grow up to be righteous,
May you grow up to be true,
May you always know the truth
And see the lights surrounding you.
May you always be courageous,
Stand upright and be strong,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young.

May your hands always be busy,
May your feet always be swift,
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift.
May your heart always be joyful,
May your song always be sung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young.

Que Deus te abençoe e te acompanhe sempre,
Que seus desejos se tornem realidade,
Que você sempre faça para os outros
E deixe que os outros façam por você.
Que você construa uma escada para as estrelas
E suba cada degrau,
Que você fique jovem para sempre,
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você fique jovem para sempre.

Que você cresça para ser justo,
Que você cresça para ser verdadeiro,
Que você sempre saiba a verdade
E veja as luzes ao seu redor.
Que você seja sempre corajoso,
Fique em pé e seja forte,
Que você fique jovem para sempre,
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você fique jovem para sempre.

Que suas mãos estejam sempre ocupadas
Que seus pés sejam sempre rápidos
Que você tenha uma base forte
Quando os ventos das mudanças voltarem.
Que o seu coração seja sempre feliz,
Que sua canção seja sempre cantada,
Que você fique jovem para sempre,
Jovem para sempre, jovem para sempre,
Que você fique jovem para sempre.

Autor: B. Dylan
Álbum: The Best Of Bob Dylan
Estilo: Rock
Gravadora: SONY
Selo: COLUMBIA/LEGACY
Ano: 2005
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Humano Hum
Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, simplesmente: Belchior

Lavrar a palavra a pá,
Como quem prepara um pão.

Quando o mar virar sertão,
Nossa palavra será
Tão humana como o pão.

E o canto que soar um palavrão
Se mostrará como é:
Anjo de espada na mão.

_//_
 Os Ombros Suportam o Mundo*
Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

*Os versos foram publicados no livro "Antologia Poética" (Organiza por Drummond)/ Carlos Drummond de Andrade - Rio de Janeiro: Record, 2010, pág. 182.

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 Tecendo a Manhã
 
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

João Cabral de Melo Neto
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“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.
Fernando Pessoa




Mãos dadas
“Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente”.
Carlos Drummond de Andrade




 “O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.
João Guimarães Rosa

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ENCONTRO CADAVÉRICO*
Por Reginauro Silva**
Ontem, encontrei-me com meu cadáver. Sério. Lívido. Compenetrado. Excessivamente gelado. Digo isto porque nada me impressiona mais no meu cadáver do que sua extrema frieza. Nem mesmo a rigidez...
Encontrei meu cadáver num corredor público. Quer dizer, um encontro mórbido num cenário idem. Como sempre, meu cadáver chegou assim sem cerimônias, estendeu a mão e ficou lá, cara de paisagem, esperando que eu o imitasse. Vagarosamente, disse-lhe oi, fitei seus olhos de imagem e ofereci-lhe as pontas dos dedos. Tudo sem pressa, no compasso da lerdeza circundante.
Vultos passavam ao largo e não davam conta de nossa presença naquele corredor burocrático. A sensação invisível é de que não acrescentávamos nada à pasmaceira ambiental, assim como aqueles fantasmas também nada agregavam à nossa insensatez. Éramos dois insossos flutuando num mar de isopores. Eu e meu cadáver.
Projetava-se no horizonte o fim das vontades;
O fim das querências; 
O fim das liberdades;
O fim das carências.
Lia-se no semblante sem alma do meu cadáver a falta de ação;
A falta de atenção;
A falta de tesão;
O excesso de ilusão.
Entre mim e meu cadáver imperava o amor que se foi;
A paixão que passou;
O beijo que marcou;
O gozo que miou...
Sorvíamos, eu e meu cadáver, o gosto amargo do fel;
O torpor da anestesia ambivalente;
O silêncio da madrugada indormida;
O murmúrio do jazigo revisitado.
Algumas lições tiradas do encontro entre mim e meu cadáver:
Não se pode tentar o imponderável;
Não se enxuga gelo com toalha;
Não se derrete barriga de sorvete;
Não se constrói sobre pilares de nada.
Pensava tudo isso enquanto meu cadáver fitava o horizonte como se contemplasse a desconstrução da constituição. Como se descomesse a epiderme espiralada do castelo ambíguo da depressão acasalada.
Por mais que assim sugerisse, eu não conseguia de toda forma embalar-me pela suavidade disforme daquele cadáver prostrado naquela esquina administrativa, como se nem cadáver fosse. Como se fosse uma coisa. Recusava-me, assim, a destruir minhas partes como se imerso numa repentina serpentina de células e neurônios congelados em massa de ectoplasmas.
Meu cadáver, va-ga-ro-sa-men-te, começou a adentrar o mundo depressivo da aridez endêmica em que se transformara, mas eu relutava em seguir-lhe os passos, por mais convincentes que fossem seus desargumentos. Num quase inaudível sussurrar, soletrou então meu cadáver que estava indo embora.
E se despediu sem maiores cerimônias.

*Fonte: A Província/Crônicas

**O jornalista Reginauro  Silva (62 anos) escreveu esta crônica numa espécie de tom profético antes mesmo de sua morte, que ocorreu no dia 21/5/2012 (2ª feira).  Ele atuou como repórter do Jornal de Montes Claros e do Diário de Montes Claros, além de repórter e editor-chefe do Jornal do Norte; redator da Rádio Educadora de Montes Claros, repórter do Diário de Minas, editor-adjunto de polícia do Jornal Hoje em Dia. Ele foi correspondente do jornal O Globo (RJ) e colaborador da Revista Veja, Gazeta Mercantil, Revista IstoÉ. Editou o Jornal O Norte de Minas e foi fundador do Jornal do Povo, em Montes Claros.


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 Wagner Rocha*
A Caverna. Fonte: National Geographic 2007
 O que se evidencia no romance A caverna, do escritor português José Saramago, a exemplo de tantas outras obras de sua autoria, é a prática de uma literatura que não se intimida ao esmiuçar os dramas humanos, mas ao contrário, procura convertê-los ao máximo em possibilidade de reflexão. Trata-se de um livro que nos dá diversas chaves de leitura em que tudo o que nele se alude requer de nós o exercício de uma consciência crítica. A trajetória literária do seu autor permite-nos apontar que o conjunto dos seus escritos é permeado por um projeto humanista bastante fecundo, onde a palavra atua como um instrumento de expressão e de tradução das vicissitudes do mundo real. Em A caverna encontramos uma metáfora, uma forma de dizer e de figurar o domínio do poder econômico, a hegemonia tecnológica e a produção em série frente o trabalho manual produzido pelo ofício do oleiro.
No texto de apresentação (orelha) que acompanha a edição da obra publicada pela Companhia das Letras, Benedito Nunes nos adverte que “a anulação do trabalho manual ou artesanal pela tecnologia, tal poderia ser o resumo desse aspecto destrutivo do capitalismo em seu acme, convertido pelo romance numa parábola social”. Diante do exposto, convém salientar que essa “parábola social” encontra, de certa forma, a sua inspiração no conhecido “mito” ou “alegoria” da Caverna descrito por Platão no Livro VII, 514a – 517b, da República. Tal questão pode ser verificada logo na epígrafe do romance em que Saramago transcreve o seguinte trecho extraído do filósofo: “Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros, São iguais a nós”. Talvez o mito da caverna seja o escrito de Platão que mais se tornou conhecido e difundido nas diversas áreas do saber, desde a filosofia aos campos da política, da literatura, da arte e da pedagogia.
O Mito da Caverna. Fonte: Tiras do Maurício de Souza
Trata-se de uma narrativa que coloca em evidência o jogo analógico entre a luz e a obscuridade, o sol e as sombras, a sabedoria e a ignorância, a liberdade e o cárcere, a essência e a aparência, o simulacro e a verdade. De acordo com Henri-Irénée Marrou, “no sétimo livro da República, o célebre mito da caverna proclama o poder emancipatório do saber, que delivra a alma da incultura”. No que tange a este aspecto, é importante mencionar que o mito de Platão alude-se ao fato da necessidade de ensinar o homem a ser sábio e a não se deixar dominar pelos jogos da aparência, da falsidade transvertida em realidade.
Para esse filósofo, o mundo real não é o que vemos, o que percebemos e captamos através da nossa experiência sensível, sendo que tudo o que entendemos ser a realidade não passa de simulacros, contornos imperfeitos desta, ou seja, meras projeções. Neste caso, o homem de Platão é um iludido, um prisioneiro que, estando no interior da caverna, não conhece nenhuma outra coisa senão aquilo que ali se apresenta aos seus olhos e aos seus sentidos.  Evidentemente, o pano-de-fundo desta abordagem realizada poeticamente por Platão – mesmo que este via nas formas poéticas um entrave para se chegar à verdade – encontra-se numa questão que parece ser o fio condutor de toda a República: a dicotomia entre “mundo sensível” e “mundo inteligível”, ou seja, a categórica distinção entre o que pertence ao universo da razão e, consequentemente do conhecimento, e o que pertence ao universo de um pseudo-conhecimento sobre as coisas, algo distante e separado da inteligência. Para ele - e esta é a grande máxima do mito da caverna – somente a razão, propulsora da prática filosófica, é capaz de arrancar o homem do interior da caverna, libertando-o e conduzindo-o para fora dela, onde reside a luz da verdade. 
Saramago, ao utilizar-se da metáfora da caverna, não quis com isso atualizar o pensamento de Platão, transpondo-o para a nossa realidade contemporânea. Não se trata disso. Em sua criação literária esboça-se uma forma de comunicar e de questionar, colocando em xeque um determinado problema humano e social que atravessa a nossa época: o homem contemporâneo, habitante da caverna do consumo, seduzido pelo culto exacerbado das grandes tecnologias, encontra-se impedido de pensar. Prisioneiro de si mesmo, vivendo em meio às sombras da sua própria soberba, o homem se recusa a ver o mundo tal qual ele é, ou seja, a sua real essência.
Os personagens principais do enredo criado por Saramago, a saber, o oleiro Cipriano Algor e o guarda Marçal Gacho aparecem como uma espécie de pretexto a fim de colocar em evidência a situação desse homem contemporâneo frente ao mundo capitalista em que vive. Os personagens em questão são homens comuns, homens do povo, pertencentes à camada pobre da sociedade. São trabalhadores que se vêem diante de um enorme conflito interior quando se deparam com a rejeição por parte de um grande Centro econômico das peças de louça fabricadas pelo oleiro, pois as mesmas eram fontes de sustento das suas famílias. Aqui se observa o impasse entre dominantes e dominados.
Acontecimentos como este narrado no referido romance dão-se em decorrência do processo industrial provocado pela expansão do capitalismo que historicamente acabou por suplantar o trabalho manual, gerando a chamada “sociedade de consumo”. Segundo o pensador francês Jean Baudrillard, nesse tipo de sociedade os homens já não vivem mais entre si, mas sim rodeados de objetos, seduzidos pelas ofertas dos grandes centros comerciais, dos shoppings centers, dos hipermercados que lhes prometem a abundância e a exuberância. Nem sempre é a necessidade que leva o homem a consumir, mas o que o objeto consumido representa no âmbito das relações humanas. A sociedade de consumo coloca ao nosso dispor uma ideia de que somos livres para consumir, porém, ao mesmo tempo, responsabiliza-se por dar mais visibilidade às desigualdades sociais. Há uma falsa liberdade, sendo que, conforme nos mostra Saramago, estamos cada vez mais imersos no interior dessa caverna sem saber o que há, de fato, por trás desse pseudo-humanismo estabelecido pelo mundo do consumo.
Assim, verificamos que apesar de ter se inspirado no mito platônico, o escritor português – um comunista convicto, diga-se de passagem - não se ocupou em estabelecer a supremacia da racionalidade sobre os dados do sensível como fizera Platão, mas é justamente o sensível, o embate cotidiano, a vida empírica, que ganha relevância em sua obra.   
  
* Doutorando em Filosofia pela UFMG; professor e chefe do Departamento de Filosofia da Unimontes
(1) Texto adaptado de uma comunicação oral apresentada no VI Simpósio Filosófico-Teológico da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, em agosto de 2009, Belo Horizonte (MG).

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